domingo, 16 de maio de 2010

O INE vai "apanhar"

O modo como o INE escolheu para apresentar os novos dados do desemprego em Cabo Verde é práticamente uma forma de se pôr a si mesmo no meio da discussão "politiqueira".Não o INE enquanto instituição mas os dados do desemprego dado a conhecer.É que,apresentar num mesmo relatório duas metodologias diferentes,duas formas diferentes de ler os dados e, inevitavelmente,duas conclusões diferentes sendo que,cada uma delas por si só,vai servir na perfeição o argumentário político dos dois maiores políticos.O MPD vai preferir manter a leitura dos dados de acordo com a metodologia antiga e,deste modo,salientar a subida do desemprego em cerca de 3,1%,passando de 17,8% para 20,9%;o PAICV, obviamente,vai optar pela nova metodologia e publicitar os 13,1% da taxa do desemprego.Para o cidadão comum e leigo,porque não entende e nem quer saber das questões técnicas,esta última leitura vai soar a uma clara descida do desemprego e,consequentemente,mais um ganho do governo.A "vantagem" do PAICV é que as pessoas,pela nova metodologia,não sabem qual é que era a taxa do desemprego do ano anterior e,por isso,nem sabem se o desemprego baixou ou aumentou.Como o INE também não apresentou esses dados não é possível saber,pela nova metodologia,qual a variação da taxa de desemprego.Entretanto,advinha-se que a JPD vai correr a fazer as contas e apresentar os dados de desemprego 2008 à luz da nova metodologia.
Ou seja,mais uma vez vamos ter a guerra dos números entre os partidos e o INE,por culpa própria,vai "apanhar" por tabela.Onde estão os assessores de comunicação do INE?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

CVMultimédia,Internet e Concorrência

Quando li a noticia no jornal A Semana de que "A CVMultimédia anuncia mais uma redução no seu tarifário do Serviço NetFácil ADSL, que entrou em vigor a 1 de Maio de 2010",perguntei a mim mesmo: quando a empresa vai lançar no mercado a oferta de tráfego ilimitado?Com esta questão surgiram outras dúvidas relacionada com a concorrência e as condições de aparecimento de outras empresas na mesma área.É que,sendo a CV Telecom a "dona e senhora" da rede,as condições de investimento nesta área não são das mais atractivas para os investidores.Claramente,o cuidado que não houve aquando da privatização da empresa quanto às condições de concorrência prejudica hoje não só os clientes como também o mercado.Um dia havemos de ter a oferta do tráfego ilimitado na utilização da internet mas acho que esse dia ainda está longe.Sou dos que acredita que devemos aprender com os nossos erros: espero que na privatização e/ou na reorganização da Electra não cometemos o mesmo erro que foi cometido na privatização da CVTelecom.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Jornalista em Construção

A dificuldade de delimitação clara do âmbito de actividade dos jornalistas enquanto profissionais caminha a par da dificuldade de definição clara da sua própria actividade:o jornalismo.E é a luta pela afirmação desta actividade como uma actividade autónoma,específica,cientificamente caracterizável e merecedora de um reconhecimento social particular,que impele os seus intérpretes a assumirem-se como profissionais,a afirmarem-se como os únicos legítimos ocupantes deste ´espaço` e a traçarem uma linha divisória que exclua todos os "nãos profissionais".
Podemos fazer várias leituras sobre a recente lei que exige formação universitária para o exercício do jornalismo. Apesar do fechamento do mercado de trabalho em prol do monopólio de controlo da profissão e do mercado,a exigência de uma formação especializada é menos um atributo da profissão e mais um meio,um recurso para o processo de profissionalização: o aumento de níveis de qualificação é fundamental nos conflitos de disputa de áreas de trabalho e respectivas "fronteiras" entre grupos ocupacionais,pelo que a formação e as escolas se transformaram em instituições que atribuem licenças para trabalhar numa ocupação,assim,estabelecendo a distinção entre os verdadeiros profissionais e os leigos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Valores e Delinquência

«Padre Campos, figura carismática e lendária em Cabo Verde, considera que a onda de delinquência juvenil com que se depara o país resulta da “perda de valores”, agravada com a onda dos negócios da droga». Não é a pobreza mas sim a perda de valores.Antigamente os pobres eram pobres e mesmo assim não optavam pela delinquência porque tinham valores!Principalmente valores como respeito pelos mais velhos,a ética do trabalho esforçado e a honradez.Pobre mas honrado.Era o pobre conformado. Isto é o que nos diz o conservadorismo,e os conservadores,para justificar a delinquência juvenil.Para eles,esta é a principal causa da delinquência juvenil.
Mas será mesmo que se "perdeu" esses valores antigos?Não creio.As pessoas não nascem sabendo os valores de um sociedade e essas,por sua vez,não são "naturais".O problema está mais na "transmissão" desses valores,regras e normas sociais do que na sua inexistência.Ou seja,os agentes de socialização primária,aquelas que têm a função de incutir nos indivíduos os valores duma sociedade,estão a falhar.A família já não consegue e a escola já se "demitiu" dessa função.Com a perda da influência da religião,não podendo contar com aquelas duas instituições sociais (escola e família) nem com a solidariedade comunitária que havia antigamente,os jovens pobres de hoje,ao contrário do que acontecia com os pobres de ontem,foram e estão a ser socializados pelos media (internet,televisão,música,mtv,black-american life style,etc) e pelos grupos de pares (gangs,repatriados dos EUA e jovens que socializados no mesmo contexto).Daí que os únicos valores,regras e normas sociais que interiorizam são aquelas transmitidas pelos media e pela gang.Obviamente não serão os valores tradicionais de uma sociedade.Enquanto os jovens pobres de hoje são expostos à um processo de socialização negativa os jovens pobres de ontem não passavam por esse processo.Eis porquê o jovem pobre de ontem não escolhia o caminho da delinquência e do crime.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pobreza e Delinquência Juvenil

Mais uma vez a ideologia conta: uns defendem que a pobreza explica a delinquência juvenil e outros contrapõem que a delinquência é explicada pela perda de valores e não pela pobreza.Estes últimos argumentam com a existência de vários jovens oriundos de famílias pobres que não enveredam pelo caminho da delinquência.Têm razão;nem todos os jovens de famílias pobres escolhem a delinquência como modo de vida e nem todos são delinquentes em virtude da pobreza familiar.Ser pobre não é apenas uma situação de privação de recursos financeiros da pessoa ou da família;é também uma condição caracterizada por um enorme escassez de vários tipos de recursos que,em conjunto,normalmente leva a uma situação de socialização negativa (um jovem pobre não tem o mesmo capital social que um jovem da classe média).Em qualquer estudo estatístico,em qualquer país,pode-se encontrar essa ligação entre a pobreza e a delinquência juvenil.Contudo,é aqui que reside o erro dos defensores da hipótese da pobreza ser uma causa da delinquência.Estipulam uma correlação determinística entre a pobreza e a delinquência quando,como devia saber um cientista social com um mínimo de conhecimento de estatística,a relação entre dois fenómenos sociais não são determinísticas mas sim probabilística.Ou seja,um não determina obrigatoriamente a outra;não é por ser pobre que um jovem vai se transformar num delinquente.Quando fazemos uma ligação entre os dois fenómenos,estamos a falar numa relação probabilística: há maior probabilidade de encontrarmos mais jovens oriundos de famílias pobres no seio de grupos de delinquentes do que jovens de famílias mais abastadas.É verdade que há muitos mau estudos que fica por essa constatação e há mais ainda que vinca,erradamente,essa relação determinística.Entre os dois fenómenos existem vários mecanismos sociais que faz com alguns jovens - pobres ou não - se virem para a delinquência e outros não (entre esses mecanismos sociais encontramos,por exemplo,as redes sociais,a questão do poder,estilos de vida,etc.).Não é por serem pobres que decidem delinquir não obstante a maioria dos delinquentes serem pobres.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Património Genético Português- Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro

"Combinando contributos de áreas tão diferentes como a genética, a arqueologia, a antropologia, a história e até a climatologia, este livro oferece uma visão multifacetada de uma memória que deixamos impressa neste mundo: seja pelos genes, pelas viagens, pelas relações interpessoais ou por um pouco de tudo isto. Cada homem, na sua especificidade genética, tem um significado evolutivo. E não se pode compreender a evolução sem compreender a variação"

Percentagem de linhagens eursasiáticas em várias ex-colónias portuguesas

País

Componente

Masculina

Componente

Feminina

Cabo Verde

54

2

São Tomé e Príncipe

20

0

Angola

12

0

Moçambique

6

0

População «branca» do Brasil

99

33

.
Cabo Verde
"Apesar de a ilha do Sal ser conhecida por pescadores mouros,wolof e serer, o arquipélago de Cabo Verde só foi descoberto em 1460 pelos portugueses, estando desabitado. A colonização começou em 1461, na ilha de Santiago, seguida pela do Fogo, com uma população mista de nobres portugueses, genoveses, aventureiros, exilados e condenados, bem como de judeus - no masculino, porque não havia mulheres entre estes colonizadores. Começou logo a formar-se uma população de mulatos ou crioulos, que corresponde à quase totalidade da população, através de acasalamento com escravas. A proporção de europeus nunca foi muito elevada e, por exemplo, em 1582, as ilhas de Santiago e Brava tinham pouco mais de 100 homens europeus e mais de 13.000 escravos africanos. Os primeiros africanos a serem levados para as ilhas foram escravos apanhados ao longo do rio Senegal pelos mouros, que os vendiam aos Wolof e estes vendiam-nos, por sua vez, aos portugueses. Há descrições de que existiam guanches, o povo original das Canárias, entre esses primeiros escravos.Distando 640 km da costa africana, o arquipélago serviu como base para o tráfico de escravos explorado pelos portugueses. A ilha de Santiago era posto de paragem obrigatória para os navios que seguiam em direcção a Angola, São Tomé e Príncipe e, mais tarde, Brasil e Antilhas".
O estudo do ADN mitocondrial foi efectuado em quase 300 habitantes das ilhas de Cabo Verde:
" apenas 2%, de linhagens maternas que poderiam ter sido introduzidas a partir da Europa, e uma percentagem semelhante, que poderá ter sido introduzida pelo Norte de África ou pelos Guanches trazidos das Canárias.A grande proporção de linhagens subsarianas mostrava uma elevada identidade de haplótipos com os descritos para São Tomé e Príncipe, o que está de acordo com dados históricos de migrações de cabo-verdianos para São Tomé, e uma origem na costa oeste africana. Já para as linhagens paternas, uma elevada percentagem de 53,5% das linhagens cabo-verdianas são afiliáveis em haplogrupos europeus e do Próximo Oriente; uma outra linhagem típica do Próximo Oriente foi observada numa proporção de 20,5%, o que pode em parte ter sido devido à migração de judeus safardistas; e uma baixa percentagem de 15,9% é afiliável em linhagens da costa oeste africana.
Esta elevada proporção de linhagens europeias e do Próximo Oriente, apesar de restrita à componente masculina,é testemunha da elevada miscigenação da população de Cabo Verde, que pode ser também constatada em várias características morfológicas."

terça-feira, 13 de abril de 2010

What´s the Right Thing to Do?

"Is torture ever justified?Would you steal a drug that your child needs to survive?Is it sometimes wrong to tell the truth?How much is one human life worth?
What do you think and why?"

Esssas e outras questões morais que relacionam a Justiça,Moral e Filosofia são tratadas nas lições "Justice with Michael Sandel" da universidade de Harvard.Podem assistir as aulas no site próprio ou via youtube,como no caso desta 1ª aula que vos deixo como exemplo.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Instituto de Propriedade Intelectual

Esse Instituto de Propriedade Intelectual é uma boa notícia para os nossos criadores (homens da cultura e os seus direitos autorais,etc.) e,caso tenha também esta função ou um gabinete de propriedade industrial,para a nossa economia (patentes,propriedade industrial,registo de marcas comerciais,inovação,invenção,etc.).Acredito que a promoção da nossa indústria exige um menor grau de protecção da propriedade intelectual e industrial,comparativamente à países mais desenvolvidos,o que significa maior liberdade de circulação da informação técnica,com o objectivo de reduzir a dependência tecnológica externa.Ou seja,a fraca protecção tende a multiplicar os patentes e o processo de imitação/adaptação.Numa perspectiva sistémica,o sistema nacional de propriedade intelectual abarca tanto os criadores culturais e os seus bens intangíveis como o subsistema industrial e os seus patentes.

ps: esta será também uma boa novidade para os jovens advogados e estudantes de Direito; o Direito da Propriedade Intelectual (e na área das patentes) é uma área com futuro promissor nas profissões jurídicas.