sábado, 14 de Novembro de 2009

Perguntas para o Redy


"Por que é que determinados indivíduos cometem crimes e outros não? Por que é que alguns são classificados como criminosos e outros não? Por que é que os homens tendem a praticar mais o crime do que as mulheres? Quais podem ser as responsabilidades da sociedade perante o criminoso: punir, tratar ou reinserir? Como é que evoluiu a visão social sobre o crime, da Antiguidade aos dias de hoje?Que teorias se desenvolveram no seio da Sociologia para explicar a ocorrência do crime e as codificações do criminoso?"

Combater a "cunha"

Quase todos os dias ouvimos reclamações de amigos e conhecidos sobre a "cunha" no recrutamento de quadros para a função pública.Que A entrou no Ministério do Trabalho porque o pai é do partido no poder,que B não conseguiu entrar como professor na Universidade de Cabo Verde por medo da concorrência da parte dos que lá já estão,que C não ficou na direcção de um organismo público e o D na direcção de uma empresa pública por serem militantes de partidos da oposição,etc etc.Existem ainda outras categorias de reclamações,também elas relacionadas com a gestão de recursos humanos na função pública:o "compadrio" na avaliação do desempenho e,consequentemente,na promoção profissional (a substituição da promoção por antiguidade pela promoção por mérito tem a inconveniência de aumentar as reclamações de favorecimento).Estas reclamações quase que já se tornaram num desporto nacional.Independentemente do partido que esteja no poder,quer seja o MPD quer seja o PAICV,vamos continuar a ouvir sempre as mesmas reclamações.Como é que se resolve isso?Como é que podemos aumentar a transparência.Todos apontam para a necessidade da despartidarização da função pública.Contudo,é preciso ir mais longe e agir na fase do recrutamento e na fase da avaliação do desempenho.Uma das formas é o recrutamento e a avaliação do desempenho serem efectuado por uma empresa privada de recursos humanos ou,em alternativa,criar uma secretaria/organismo com essa função.Assim,ao menos,saberemos quem beneficiou quem.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

"(...) temos licenciados que são incapazes de escrever um parágrafo! (...)" Corsino Tolentino

Precismo ler Bernard Lahire em La Raison Scolaire: École et Pratiques d'Écriture, entre Savoir et Pouvoir.Ele no diz que a "explicação do insucesso escolar deve ser construída a partir da análise dos modos de relação dos alunos com o tipo de linguagem veiculada pela escola. A operatividade do capital cultural das famílias de origem na definição das trajectórias escolares dos alunos depende, em grande parte, das condições de transmissão desse tipo de disposições.Por subentender a reflexão aquando da sua interiorização e accionamento, a linguagem escolar distancia-se da linguagem prática e dos seus modos de enunciação (linguagem gestual, onomatopeias, sentidos implícitos da mensagem transmitida…). Embora o autor admita que as trajectórias escolares dos alunos são influenciadas por factores exteriores ao contexto escolar, defende que o conhecimento sociológico acerca desta questão ganha inteligibilidade se forem analisados os processos de ensino-aprendizagem que se desenrolam nesse mesmo contexto. A escola existe num universo social que necessariamente a estrutura. Mas a compreensão científica da estruturação dos desempenhos dos alunos por factores externos tem de ter em consideração os princípios escolares de produção do sucesso e do insucesso. Neste sentido, Lahire defende a necessidade de se perceber o sucesso/insucesso escolar analisando antropologicamente as formas e lógicas que o potenciam nos quadros de interacção escolares. Neste sentido, um dos desafios que se colocam à Sociologia é descobrir as diferenças sociais que decorrem e emergem deste hiato entre a linguagem prática e a escolar.O autor demonstra que as características dos textos escritos por parte de alunos que frequentam o ensino primário tendem a variar de acordo com a família de origem dos mesmos (pp. 121-123). Por exemplo, os filhos de operários são os que menos expressões valorizadas na escola utilizam, cujos textos apresentam maior número de incoerências temporais, que cometem mais incorrecções na expressão de ideias e na pontuação…"
Terá essa teoria alguma contribuição para a questão da oficialização da língua cabo-verdiana?

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Crescimento económico e emprego

É conhecido a clássica "crença" segundo a qual "sem o crescimento económico não é possível resolver o problema do desemprego".Contudo,a maior complexidade do fenómeno pôs a nú a simplicidade dessa ideia.O raciocínio é simples: o crescimento económico,por via do aumento do consumo e de investimentos (e,se possível,da exportação),leva as empresas a fazer mais contratação devido ao incremento da procura.A simplicidade reside aqui: aumenta a procura,logo aumenta a contratação de mão-de-obra para suprir essa procura.Nesta visão,o "crescimento económico" é a variável independente cuja variação provoca efeitos sobre o "emprego",que é a variável dependente.Ou seja,há de facto uma correlação positiva entre o crescimento económico e o emprego.Contudo,o contrário também é verdadeiro;podemos também encontrar uma correlação positiva entre o emprego e o crescimento económico.O "emprego" como variável independente também influência o "crescimento económico" quando esta é tido como variável dependente.O aumento do emprego provoca um aumento na procura e no consumo e,consequentemente,do investimento e do crescimento económico.Portanto,não é apenas o crescimento económico que leva ao aumento do emprego mas esta,o aumento do emprego,também leva ao crescimento económico.Não é uma que influencia a outra;elas influenciam-se mutuamente.É por isso que,no combate ao desemprego,o papel do Estado não pode limitar-se à "criação de ambiente propício ao crescimento económico" e não pode ser deixado tudo ao mercado e às empresas.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Igualdade de Oportinidades e de Resultados

"Tendemos a pensar que se deve ensinar a pescar em vez de oferecer o peixe. O importante é que cada um tenha oportunidade de pescar, embora uns possam obter melhores pescarias do que outros. Mas será que esta disjunção é conceptualmente satisfatória? (...) uma igualdade de oportunidades ao mesmo tempo formal e substantiva é uma forma de "ensinar a pescar" e não de "oferecer o peixe".Mas será que pode existir uma verdadeira igualdade de oportunidades numa sociedade que seja profundamente desigual em termos de rendimento e riqueza?Claro que não. Os mais favorecidos estarão sempre numa posição privilegiada para aceder a mais oportunidades - educativas e outras - para si mesmos e para os seus filhos. Portanto, o aprofundamento da igualdade de oportunidades implica sempre a diminuição da desigualdade social medida pelo índice de Gini. Não basta ensinar a pescar. Para que as oportunidades sejam verdadeiramente iguais é também necessário que não haja uma grande disparidade entre os recursos de que dispõem os diversos pescadores - o peixe que cada um tem à partida e serve de isco, por assim dizer."
João Cardoso Rosas,in Ionline

Salário Mínimo

«"Nos últimos anos, a questão dos impactos do salário mínimo sobre o desempenho económico em sido vastamente debatida entre economistas. De acordo com o modelo neoclássico tradicional, assumindo um mercado de factores perfeitamente concorrencial, o aumento do salário mínimo conduziria a uma redução do emprego dos trabalhadores com salários mais reduzidos. No entanto, sabe-se que num contexto em que os empregadores detêm algum poder para determinar os níveis de salários, contrariamente ao que prevê a teoria tradicional, um aumento do salário mínimo não se reflecte necessariamente na redução do emprego, podendo mesmo, em certas situações, conduzir a um aumento simultâneo dos salários e do emprego. Empiricamente, a generalidade dos estudos que procuraram estimar os impactos de aumentos do salário mínimo (ocorridos em diferentes contextos) sobre o emprego, concluiu que os efeitos eram não significativos ou até ligeiramente positivos". Ricardo Paes Mamede, referências omitidas. Referências a que vale a pena prestar atenção porque reflectem o que pensam muitos economistas que não se renderam à distopia do trabalho como mercadoria.
Isto para não falar da ideia arbitrária de que o combate às desigualdades e à pobreza só se deve fazer por via fiscal. As inevitáveis regras do jogo, que definem o que é uma empresa, e quem é que nela tem poder para se apropriar do quê, nunca são neutras nestas áreas. O salário mínimo é apenas uma boa regra. Combate a pobreza laboral, reduz as desigualdades, aumenta os incentivos para a modernização produtiva e muito mais. Faz parte de um bom multiplicador da igualdade em Portugal. A desigualdade também deve constar da agenda dos economistas. Os seus custos, em termos de eficiência dos processos económicos, podem ser bem elevados, como a última crise aliás demonstra. Isto, claro, exige ter em atenção elementos como a confiança e a sua erosão, a relação entre as regras e as relações de poder, os seus impactos sobre a saúde e a motivação dos trabalhadores. Elementos que devem fazer parte da economia como boa ciência social que supera simplismos (neo)liberais».
João Rodrigues,in Ladrões de Bicicleta.

Kseniya Simonova's Amazing Sand Drawing

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Cabo Verde tem Doutores a Mais?

Mas onde está o mal no país ter "doutores" ou licenciados a mais?Que consequências traz para o país e para nossa colectividade esse aumento do número de licenciados?Nada,rigorosamente nada de grave!Eu,pessoalmente,prefiro ter vários taxistas no aeroporto da Praia com canudos de que taxistas com apenas a 4ªa classe.Quem pensa o contrário é porque ainda tem uma ideia utilitarista do diploma universitário.Há já algum tempo que o diploma universitário deixou de ser garantia de alguma coisa a nível profissional.A ter algum significado,ela é simbólica: o diploma universitário é a esperança que algum dia terei a minha oportunidade.O taxista com um diploma,qualquer dia pode transportar um cliente que que,por ser empresário ou alto dirigente,pode oferecer-lhe uma oportunidade duma entrevista de trabalho.O "nosso" erro está em ainda acreditarmos que todos os juristas têm de ser advogados,juízes ou procuradores;que todos os historiadores têm de ser professores ou arquivistas ou que todos os sociólogos têm de trabalhar no sector social (delinquência,pobreza,animação social,etc).Qual é o mal em carpinteiros ou electricistas,enquanto exercem a sua profissão,serem estudantes universitários?O "nosso" problema está na desvalorização social e na falta de prestígio das profissões técnicas.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Novo Ano Judicial

"Entre outras razões,o aumento dramático dos processos e as consequências que produziu nos tribunais propiciou o interesse da sociologia pelo estudo da administração da justiça.Entre as várias linhas de investigação,distinguem-se:as desigualdades no acesso ao direito;o fim do mito da neutralidade dos tribunais concebidos como sub-sistema do sistema político sujeito a um padrão específico de organização profissional;a existência na sociedade de múltiplas instâncias jurisdicionais que competem com os tribunais na resolução dos conflitos.Os princípios de uma nova política judiciária,que se enunciam,e a democratização da justiça,para que apontam,exigem que se faça investigações emperícas nestas áreas em `Cabo Verde`".

Boaventura Sousa Santos,"Introdução à Sociologia da Administração da Justiça"

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Combater o Desemprego

No geral,as propostas para a solução do desemprego que têm sido apresentadas podem ser agrupadas em três conjuntos.A 1ª estratégia consiste em aumentar a oferta de trabalho,ou seja,em aumentar o volume de emprego.Neste cenário,privilegia-se o aumento do crescimento económico para que o volume de emprego cresça proporcionalmente.Esta estratégia dominante é posta em causa pela evidência dos seus próprios limites: o crescimento económico por si só não pode resolver o problema do desemprego,pois ele não é ilimitado e é menos rápido que o movimento de destruição de empregos.Trata-se de uma solução económica clássica para um problema que sofreu uma mutação mais complexa e mais vasta.
A 2ª estratégia visa responder à própria existência de desemprego,sendo para tal necessário repartir o emprego disponível de maneira equitativa e harmoniosa.As propostas vão no sentido de "redistribuir o emprego",de "partilhar o emprego" ou,ainda,de "reduzir a duração do trabalho".Estas soluções desenvolvem-se actualmente em muitos países,assumindo formas diversificadas.Porém,qualquer que seja a forma,o problema de base é sempre o mesmo:quem paga?O assalariado?A empresa?A colectividade?Ou seja,o princípio de redistribuição do trabalho implica uma questão incontornável que é a de pôr em prática novos modos de redistribuição do dinheiro,isto é,das riquezas colectivas produzidas cada vez mais com menos trabalho.
A 3ª estratégia procura criar emprego fora do sector clássico e habitual do emprego.É o caso dos empregos de serviço às pessoas,onde o empregador não é mais a empresa,mas todo um sector de actividades que converge para uma economia social (ajudas domésticas,serviços de vocação social,apoio domiciliário).Esta ideia consiste em tentar criar um novo tipo de empresa,associativa,ao nível local,podendo produzir um novo tipo de actividades com função de utilidade social,susceptível de propor empregos alternativos acompanhados por um salário adequado.