segunda-feira, 18 de julho de 2011

Discutir Medidas

Sobre a delinquência juvenil, os “thugs”, o “kasu body” e,agora,a proliferação de armas, já se disse tudo mais alguma coisa. Como causas, o desemprego na camada jovem, a pobreza, perda de valores, a globalização, a influência da TV, a imitação do modo de vida “america gangster”, os problemas na socialização (provocada pelo abandono familiar, abandono escolar e convivência/aprendizagem com os repatriados dos EUA, os erros das instituições de integração social ou re-socialização), a inexistência ou políticas desadequadas, etc, etc. As causas são múltiplas e, para piorar, cada vez mais, no nosso caso, está se tornando difícil diferenciar a simples delinquência do crime juvenil. De qualquer maneira, já perdemos tempo demais a discutir as causas desse problema; é tempo de discutirmos as medidas e a sua eficácia. Provavelmente, este é o principal “vício" da nossa classe intelectual: gostamos muito mais de diagnosticar do que prescrever. O que se tem feito? Quais o impacto dessas medidas? Que medidas tiveram êxito e quais não tiveram?
Falando em medidas, cá está uma boa ideia que é perfeitamente adaptável ao nosso país: recém-licenciados podem ser mentores de jovens em risco.

sábado, 16 de julho de 2011

Yes Africa Can: Success Stories from a Dynamic Continent (Sim, a África pode: Histórias de Sucesso de um Continente Dinâmico)

"Cabo Verde fica fora das histórias de sucesso no continente africano".


Apesar das notas positivas no relatórios do Banco Mundial,FMI e outros organismos internacionais,desta vez CV fica de fora.Não que o país não tenha casos de sucesso;simplesmente,outros países africanos estão a ter mais sucesso.A meu ver,   preocupamos muito mais com a democracia,gastamos muito mais tempo com a democracia ou a sua consolidação do que com aquilo que o país realmente precisa:a diversificação da nossa economia.Todos já concluíram que o turismo,a pesca e as obras públicas não chegam para a ambição do cabo-verdiano.O país só terá condições para fazer crescer a economia acima de 10% quando a economia for muito mais diversificada,quando houver vários sectores económicos consolidadas, dinâmicas e independente do Estado.E quando essas empresas,que produzem e que inovam,começarem a internacionalizar e a exportarem os seus produtos,nomeadamente,para a África.

Distributivismos

"No pensamento da direita liberal existe desde há muito uma forte crítica à ideia de justiça distributiva. Isso encontra-se em Hayek, especialmente no livro “A Miragem da Justiça Social”.
A argumentação de Hayek é múltipla: nenhuma entidade pode centralizar os conhecimentos necessários para aplicar a justiça numa sociedade livre e de mercado, o simples facto de tentar aplicá-la conduz a uma aproximação ao totalitarismo, etc.Um outro pensador, Robert Nozick, considera, na obra "Anarquia, Estado e Utopia", que a justiça distributiva é uma forma de roubo, na medida em que equivale a obrigar alguns - os mais favorecidos - a trabalhar para os outros - os mais desfavorecidos, ou a sociedade no seu conjunto. Em suma, tanto para Hayek como para Nozick o distributivismo leva a uma indesejável interferência por parte do Estado no mercado e na liberdade dos indivíduos.É claro que é um pouco chocante que alguém defenda que a justiça distributiva é, em si mesma, uma má ideia. Os nossos políticos e publicistas de direita não se atrevem a dizer isso com a clareza de Hayek ou Nozick. Mas não deixam de reflectir, a um nível bastante menos sofisticado, as ideias desses autores.Por isso criticam o Estado social, afirmam que a promoção da igualdade económica põe em perigo a liberdade, dizem que é importante a igualdade de oportunidades em termos formais, mas não a igualdade de resultados, etc.Mas o mais curioso é o facto de os mesmos que se incomodam com o distributivismo da esquerda não parecem incomodar-se nada com o distributivismo de sinal contrário promovido pela direita agora no poder. Vejamos dois exemplos.A diminuição generalizada da TSU e a sua compensação com o aumento do IVA consistirá, caso seja aplicada, numa distribuição do dinheiro das famílias, incluindo as mais pobres, para os empresários, muitos dos quais aproveitarão para aumentar os lucros imediatos e não para ser mais competitivos no futuro. Outro exemplo: a doação de mão beijada das ‘golden shares', nomeadamente na PT, equivale a distribuir um valor detido pela comunidade - através do Estado - pelos accionistas dessas empresas - que não são certamente o povo desfavorecido.O problema é este: a crítica da direita à distribuição igualitária da esquerda tem a ver com a interferência na espontaneidade social e na liberdade das pessoas. Mas essa interferência aplica-se tanto às distribuições com sentido igualitário como às que têm um sentido anti-igualitário.Ao não verem isto, os nossos comentadores de direita mostram a debilidade do seu pensamento. Como se pode ser contra a interferência distributiva do Estado quando ela beneficia os mais pobres e ser a favor dela quando beneficia os mais ricos?"

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Asneiras

«Noutro dia alguém terá me dito que o sucesso do PAICV é de que, como é um partido composto de muitos sociólogos, ajuda-o na análise da sociedade para poderem aplicar a “politiquice” (compras de consciência, pressão no emprego, nomeações, etc.)».
Carlos Monteiro,vice-presidente da JPD


Esta pequena citação está repleta de originalidades: o "sucesso" do PAICV deve-se aos muitos sociólogos que fazem parte do partido...e o trabalho dos sociólogos é analisar a sociedade para descobrirem a melhor forma para "aplicar politiquice"...não sei o quê um sociólogo do MPD vai responder ao seu colega de partido...será que a diferença entre o MPD e o PAICV está na quantidade de sociólogos militantes em cada um dos partidos? Doravante,os partidos políticos,as empresas e organizações não precisam gastar milhares em consultoria para terem sucesso;basta contratarem inúmeros sociólogos.É desta forma que essa categoria profissional vai ganhar algum reconhecimento/valorização social e,finalmente,vai haver uma diminuição de desemprego no seio da classe.Esta "justificação" explica,em parte,porquê o MPD não consegue vencer o PAICV...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Como Não Avaliar os Candidatos Presidenciais

1- Tem se valorizado muito e até apresentado como uma vantagem comparativa o facto de dois dos candidatos terem formação jurídica e,mais precisamente,terem conhecimento de direito constitucional.Ora,porquê o direito constitucional e não,por ex.,a economia (cujo conhecimento pode ser uma vantagem nestes tempos de crise económica-financeira)?Ninguém é melhor candidato ou vai ser melhor presidente por ter "profundos conhecimento da constituição".Os cabo-verdianos não vão votar no próximo Presidente da República para ser professor de direito constitucional mas sim para ser simplesmente presidente,o que implica muito mais do que ser especialista em direito constitucional.Como é moda dizer agora,há mais vida na acção presidencial além do conhecimento jurídico.

Crise da Dívida Soberana

A sociologia,nomeadamente a sociologia económica e a sociologia das finanças,também vem explicando com ferramentas e teorias sociológicas a actual crise financeira mundial.Aqui vai,por exemplo,4 leituras sobre a actual crise da dívida soberana:


    1) Interdependências: a questão da reputação,a questão das agências de rating (avaliação financeira) e da interdependência financeira entre vários países da Europa (os bancos franceses e alemães possuem a maioria da dívida grega).Leia Bruce Carruthers em Spain, the sovereign debt crisis, and the sociology of finance: some comments.
    2) Ideologia: segundo Jose Luis Alvarez,a crise deixou desorientado o governo espanhol de esquerda e sem ideologia;leia The Sovereignty of the Economic and The Subordination of Politics in Spain:Ideological & Political Causes.
    3) Narrativas: uma vez que toda a gente tem a sua "teoria" David Martin foi perguntar qual é o sentido da crise às pessoas na rua. Pode ser lido aqui: Household Narratives of Spanish Sovereign Debt Crisis.
    4) "Framing": como e através de que estratégia de comunicação é possível persuadir os investidores?Ou,sobre a construção de uma teoria sociológica da avaliação financeira.Daniel Beunza fala de Persuading the markets: Spain, the sovereign crisis and the challenge of financial communication.
   5) Um livro,organizado por Michael Lounsbury,a explicação da actual crise na perspectiva da sociologia económica que se baseia,entre outras,no carácter socialmente produzida e gerida da actual crise: Markets on Trial - The Economic Sociology of the U.S. Financial Crisis.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Por que os economistas acadêmicos deixaram de prever a crise?

"Há várias respostas para essa pergunta. Uma é que os economistas não tinham modelos capazes de levar em conta o comportamento que levou a essa crise. Outra é que eles tiveram a visão obscurecida pela ideologia de que mercados livres e irrestritos não podiam fazer nada errado.Por fim, a resposta que vem ganhando terreno é a de que o sistema subornou os economistas para que silenciassem (...) Eu argumentaria que três fatores explicam nosso fracasso coletivo: especialização, a dificuldade de se fazer previsões e o descolamento entre boa parte da profissão e o mundo real." 

Gosto muito desta definição dos economistas: um economista é aquele que vem explicar hoje porquê aquilo que previu ontem não ocorreu!

Afectos

Hoje alguém disse-me que,pela imagem percepcionada,há pelo menos uma semelhança entre os 4 candidatos presidenciais: os 4 são pouco expressivos em termos de afectividade.Ao contrario do Pedro Pires,José Maria Neves ou Carlos Veiga,os actuais candidatos não são emotivos,pelo menos publicamente.Não que isso seja mau ou um ponto negativo nas respectivas candidaturas;é apenas uma constatação.

O Homem e o Poder

"Um homem com poder é tendencialmente perigoso. Deixa de ver os limites do que é digno e indigno. Escorrega muito facilmente para terrenos pantanosos. Julga que tudo lhe é permitido. Tem à volta uma corte reverencial que o induz a crer que é um deus e que as outras pessoas são instrumentos para os seus desejos. O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Ele não tem o poder absoluto, mas as noções mais corriqueiras do bem e do mal tendem a desfazer-se".
 Maria Filomena Mónica