quinta-feira, 7 de maio de 2009

Leitura Interessante (3):sobre a crise actual e Adam Smith

«dada a especulação financeira com produtos sofisticados e pouco, ou nada, regulados, que conduziu à crise actual, a génese do problema está nas condutas de mercado e na agenda política de progressiva desregulamentação que foi implementada. Mas se a regulação afinal é necessária, e se a supervisão é aconselhável isso tem como corolário que os participantes nos mercados podem ter tomado decisões pouco avisadas muitas vezes motivadas pela ansia do lucro imediato. É nessa vertente psicológica que se podem explicar as bolhas. Ou, nessa vertente ética se preferirem. Esta é na sua essência, e para parafrasea um título recente do Wall Street JournalUma crise de proporções éticas.Houve más decisões do Estado? Com certeza. A pior de todas foi não ter salvo o Lehman Brothers, um gigante demasiado colossal para que não gerasse a bola de neve que gerou ao tombar.Em qualquer caso, os erros de base são ERROS DE MERCADO. A crença quase religiosa de que o comportamento egoista e descentralizado de agentes individuais a quem é propiciada toda a liberdade produz necessariamente um óptimo colectivo está fortemente enraizada em alguns alinhamentos de pensamento político e económico. O neoliberalismo cobre esse alinhamento, e neste sentido a crise desnudou os fundamentos neoliberais.Alguns poderão advogar, no que é aliás o caminho que me interessa traçar, que o processo que descrevi acima não é mais que a mão invisível de Adam Smith, e por isso estaríamos no core do liberalismo clássico, sendo o prefixo "neo" completamente desnecessário.Sucede que este não é o modelo em que Adam Smith idealizou que a sua mão invisível geraria algo de bom. Porque o que é vulgar os economistas se esquecerem hoje em dia, é que Smith era antes de mais um Filósofo Moral.Em 1759, quando publica a sua Teoria dos Sentimentos Morais, Smith dá mostras de uma longa e aprodundada reflexão sobre a aprovação e a desaprovação moral de condutas humanas. Contudo, e este é o ponto crucial, a sua diferenciação das condutas não é baseada numa percepção utilitária das mesmas, como em Hume, nem tão pouco num certo consequencialismo típico do Hutcheson. Para Adam Smith, a o critério de diferenciação baseia-se na empatia ou compaixão.É esse filósofo moral que concebe a ideia da mão invisível, mas num quadro em que não existe qualquer separação entre propriedade e gestão empresarial: forma totalmente dominante hoje em dia de organização das empresasSmith opunha-se a esse quadroidentificando o âmago do problema na Riqueza das Nações:"Managers of other people's money rarely watch over it with the same anxious vigilance with which they watch over their own. They very easily give themselves a dispensation. Negligence and profusion must always prevail."A tese frequentemente advogada pelos defensores do laissez-faire de que os mercados se autoregulam porque existe uma força poderosa, o interesse egoísta individual, que os reconduz ao óptimo social, esquece-se que Smith idealizou a famosa metáfora do interesse egoísta do padeiro e do interesse egoísta do açougeiro ou do cervejeiro como fundamentos essenciais ao mercado, numa óptica em que o padeiro era responsável pela sua padaria, e o cervejeiro pela sua cervejaria. Nenhum deles tinha interesse em colocar em causa a sua actividade, e incurrer em riscos lunáticos. O mercado livre de Adam Smith é um mercado em que não existem gestores subcontratados pelos proprietários para tratarem do seu negócio. E a frase acima mostra como Smith encara esse problema.Em linguagem moderna, o problema das instituições financeiras seria descrito como um problema de agência... Em síntese, o que se passa é que o director do banco tem uma garantia (o pára-quedas) se as coisas correrem mal, e tem muito a ganhar se correrem muito bem. Como notou John C. Bogle, fundador e antigo director do Vanguard Group of Mutual Funds, criamos uma sociedade em que se perdeu o controlo do interesse egoista individual. O sucesso passou a ser medido exclusivamente em termos monetários, e os standards individuais de conduta profissional, desapareceram. Do absolutismo moral, "existem coisas que simplesmente não faço" ao relativismo moral completo", se os outros o fazem, porque não o faço eu?" atransição foi total...Em síntese, uma mudança nas condutas é o único caminho de recuperação a longo prazo. E essa mudança exige um reaproximar do modelo moral de Smith, em que a compaixão caracteriza as acções humanas dignas. Nada disto é compatível com ideários neoclássicos ou austríacos de ultra-individualismo e maximização do lucro. A sociedade fiduciária em que o interesse não é posto no ganho corrente individual liquida tanto os pressupostos neoclássicos como o empresário de Hayek...O erro dos neoclássicos é presumir que o que tem um solução matemática (ex. um sistema de incentivos óptimo que não motive um comportamento desviante do gestor) não existe necessariamente fora do papel onde se derivaram os resultados. Já os institucionalistas, teriam actuado sobre a realidade de modo a minimizar o problema, em lugar de presumir que matematicamente ele estava resolvido.É difícil antecipar o que será eactamente esse novo mundo. Mas num sentido a premonição de Schumpeter em 1942 estava certa: o capitalismo continha os elementos para minar as suas bases e criar um sistema mais estatizado. Onde Schumpeter falhou foi na percepção de que esse sistema mais estatizado não matava a iniciativa individual, apenas lhe poderia conferir alguns cuidados sociais. E falhou também ao achar que eram as elites políticas e académicas que liquidariam o sistema. Nem uns nem outros estavam em Wall Street».
Carlos Santos,in O Valor das Ideias

2 comentários:

Anónimo disse...

Pensei que estava a ler o Edy, mas afinal ao chegar ao fim descobri um tal Carlos Santos.

Aqui ha dias eu tinha tido um debate identico com o Edy, onde eu chamava esses gajos do Wall street ladroes.

A analise de Santos sobre Smith e egoismo e neo-liberalismo que afinal é liberalismo tout court, vai nesse sentido.

Mas fiquei com a impressao o que dizia no outro dia ao Redy sobre outra coisa, que ja tinha lido este artigo ou em inglês ou em francês. Sobretudo aquela passagem sobre os egoismos e a filosofia moral de Smith.

Continuo a dizer que os articulistas portugueses copiam quase tudo de artigos originais ingleses ou franceses sem qualquer pudor. Quero dizer sem citar os verdadeiros autores dos artigos.

Tirando este aspecto é uma fina analise. Resta saber se saiu da pena do portuga ou se foi uma traduçao adaptada. Quase que ponho a mao no lume que é copia. So que nao estou agora com pachorra de ir procurar o original; mas ja tinha lido o artigo quase todo na forma original nalgum sitio.

Al Binda

Anónimo disse...

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