sábado, 13 de junho de 2009

A crise,a Moral e a Politica

«A tese da origem moral da crise económica tem vindo a ser promovida em múltiplas intervenções públicas, com as mais variadas intenções. Em alguns casos, com as melhores das intenções; mais frequentemente, porém, ou para reforçar emocionalmente a crítica radical do capitalismo, acusado de inevitavelmente “ganancioso”, ou para contrariar a avaliação sistémica da crise, reduzida ao resultado do mau comportamento de uns poucos agentes menos poderosos. Independentemente da sua motivação, a tese é, sempre, errada.A crise não é moral mas política. Comportamentos gananciosos e socialmente irresponsáveis haverá sempre, qualquer que seja o sistema socioeconómico. O problema não é pois esse, mas o da existência de regimes de regras (instituições) que desincentivem ou, pelo contrário, incentivem tais comportamentos. E esses regimes de regras são, no essencial, o resultado de decisões políticas. Se a moral fosse suficiente para garantir a civilidade dos comportamentos humanos, a política e o direito seriam socialmente desnecessários.O que aconteceu nas últimas décadas não foi pois a generalização de comportamentos amorais ou moralmente egoístas mas a construção institucional de um sistema socioeconómico que não só tolerava como seleccionava positivamente tais comportamentos na esfera económica. E essa construção resultou de sequências de decisões políticas ideologicamente justificadas e promovidas.Do que precisamos não pois é de nova cruzada moral agora de sentido contrário mas de novas escolhas políticas que permitam compatibilizar o capitalismo, e portanto o crescimento económico, com a promoção da igualdade e da solidariedade sociais. Ou, mais rigorosamente, que actualizem escolhas políticas que demonstraram já, no passado, a viabilidade dessa compatibilização, como o foram, em particular, as políticas social-democratas nórdicas (demonstração de que o capitalismo não é, inevitavelmente, “ganancioso”).O problema é pois a política, não a moral. Ou melhor, a possibilidade da prevalência de outros valores depende, antes de mais, de mudanças nas políticas, não de apelos morais.»